domingo, 16 de dezembro de 2018

Analise de filmes: Capitalismo: uma história de amor (2009) e apocalipse now (1979)


     
         Para iniciar, não tem como negar a grande relação que há entre os filmes assistidos e as questões da sociedade moderna, primeiro porque são temas recorrentes e que até hoje não perderam de vista suas discussões, e segundo que, são temas caros a vida em sociedade e que fazem recorrer a uma certa minucia do historiador para aborda-las, pois como se trata, então, de coisas que afetam na sociedade moderna e dizem respeito a contemporaneidade, podem muitas vezes sofrerem mais do que deveriam da nossa parcialidade recorrente.
      Trazendo então a pauta as questões importantes como sistemas sociais, vida em sociedade, conflitos entre nações e a própria ideia de civilização que iremos discorrer nas próximas linhas. O ser humano tenta há anos encontrar melhores formas de viver e conviver em seus grupos sócias. Porem existe até hoje uma insatisfação com todas as formas já experimentadas, nas sociedades antigas, era naturalizado viver e sobreviver pela degradação do outro ou com o preço de isso ocorrer, tanto que relações de subordinação entre quem detinha bens e escravizar os que pouco tinham ou até seus inimigos era algo muito comum. Os seres humanos sempre utilizaram do grupo para proteção, mas do individual para crescimento tentando impor sua forma de pensar em relação aos outros, isso ocorre de forma contundente, citando como exemplo, a atitude oportuna de se proteger em grupo que Constantino declara a fé cristã como oficial do império romano, isso porque essa nova forma de doutrina estava a superar a antiga fé pagã e para convir a si e a seu império Constantino toma pra si essa doutrina até então primitiva e do povo, para um dogma institucionalizado e coberto de “leis” que convinham ao imperador (para manter sua hegemonia) e para o império (para não ruir antecipadamente), ele faz um ameaça ao sistema, se tornar parte do mesmo para lhe convir, isso é algo característico do ser humano, mas podemos encaixar a democracia a essa constatação?
       Me remeteu ao império romano por conta dos filmes em questão, e das temáticas que eles trazem, o apocalipse now mostra justamente o cenário de guerra e a degradação que representa uma guerra, e essa em especial que não tem consigo outra motivação que não seja a de sobreposição de um ideal de civilização para com outro, a ideia de demonstrar superioridade com barbárie e violência tipicamente humana, e por outro lado essa mesma barbárie e violência sem usar arma alguma com que o sistema chamado capitalista suga recursos e energias de pessoas em detrimento de outras.
        Logo no início do filme capitalismo: uma história de amor o autor do filme traz um paralelo de como o império romano com toda sua amplitude e magnitude, consegue ruir após criar um sistema para poucos enquanto tenta distrair a maioria com espetáculos em suas arenas e dessa forma mostra a semelhança com que tais eventos ocorrem no império norte-americano atual, nesse caso prevendo sua ruina por utilizar das mesmas artimanhas romanas.
        Portanto como já mencionei ambos os filmes tem semelhanças justamente nas barbáries cometidas para com a sociedade, tendo em ambos a única diferença de que um é financeiro e o outro é bélico. Mas para além disso o sistema capitalista é desumano por não visar nada além do lucro, lucro esse que custa caro à vida de cidadãos que somente fazem parte e defendem esse sistema sem ao menos perceber que o sentido do mesmo nunca foi o de criar possibilidade de harmonia social e liberdade ao seu povo, esse sistema se visto com minucia cria muito mais presos a ele do que libertos.
         Retomando então, a questão da democracia, seria essa, após longos duzentos anos de sua evocação e expansão mundial, um instrumento utilizado ainda por pessoas que querem manter uma hegemonia se encaixando num sistema que deveria ser de acordo com sua teoria um igualador político? Mas que serve de forma gritante ao chamado corporativismo, isso mais no pós guerra. O estado democrático de direito tinha tudo para ser um sistema perfeito, não fosse a forma como ele é manuseado no mundo, ou será o Homem um ser puramente egoísta que não consegue se enquadrar num sistema de participação e cooperação visando o bem comum? São perguntas pertinentes que vem à mente quando se assiste a tais filmes e se conhece a história da segunda metade do século XX para cá.
        No filme sobre o capitalismo, temos a questão da habitação nos EUA e de como essa afeta a população chamada de classe média a se endividar, os bancos oferecem um refinanciamento de imóveis, ou seja, fazer empréstimo utilizando a casa como garantia em caso de inadimplência, isso tornou uma onda de endividados, principalmente no governo de Reagan que segundo o autor desse documentário, foi um governante em prol de Wall Street, (e qual não o é de alguma forma?) enfim, esse processo favorecia os corretores de imóveis que pegavam essas casas junto aos bancos e as vendia para outro membro da classe média que muito possivelmente ficaria refém do banco por muito tempo.
        Nesse documentário há também a tentativa de definir o que é o capitalismo, em uma das falas é dito que esse é: como em uma cidade que tem várias lojas e dentre essas lojas um indivíduo terá a melhor loja e garantirá mais lucro, remetendo assim à competição e lucro. E é aqui que temos um ponto que pode ligar tanto o filme capitalismo uma história de amor ao filme apocalipse now, na questão da concorrência, ou seja, se o capitalismo implica nisso, os EUA foram bons no quesito eliminar concorrências, pois após a segunda guerra o país se consolida como o maior modelo e propagador dessa pratica e vai buscar seguir eliminando a concorrência e diplomaticamente imprimindo que o capitalismo é a melhor modelo econômico e maior ideologia para o Estado, ou seja, o governante deve também reger o país nos moldes do livre comercio e visando a expansão econômica, logo, potência econômica virou símbolo de superioridade e progresso civilizatório. Sendo assim o cenário de guerra do Vietnã é simbólico no exemplo de como os norte-americanos estavam focados em controlar a forma de agir e construir civilizações no mundo. A entrada dos EUA na guerra na região da indochina foi consideravelmente equivocada e sem sentido, no olhar racional do caso, porém o momento que o mundo passava era de um acirramento imenso onde o poder diplomático estava regido pela URSS e os EUA, que influenciavam a opinião dos outros países e faziam com que esses entrassem em guerra, justamente para tentar provar que um modelo era melhor que o outro, sendo de certa forma o capitalismo o “vencedor”.
          No filme que inicia com o napalm devastando florestas no Vietnã, mostra como os EUA e seu exército desumaniza os vietnamitas e fazem barbáries em nome da civilização e com sua audácia ainda chamava-os de selvagens. O que seria selvageria senão um sistema que faz as pessoas competirem tanto por uma vaga de emprego? Passar horas num shopping center em filas de lojas para comprar produtos? O filme não só retrata a guerra mais também a natureza humana.
        A divisão de países asiáticos demonstrou um poder bélico devastador com os milhões de toneladas de napalm lançados sobre o Vietnã (mais bombas que durante a segunda guerra inteira), uma guerra sangrenta e sem sentido algum (como todas as guerras), mas em especial nessa, em um país longe do sonho americano e que semelhante as Coreias, foi dividido entre comunistas e capitalistas, em que o segundo, nesse caso em especial, perdeu de forma vergonhosa, mas os prejuízos foram vistos com mais clareza pelos vietnamitas, que perderam milhões na guerra.

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