Para iniciar, não tem como negar a grande
relação que há entre os filmes assistidos e as questões da sociedade moderna,
primeiro porque são temas recorrentes e que até hoje não perderam de vista suas
discussões, e segundo que, são temas caros a vida em sociedade e que fazem
recorrer a uma certa minucia do historiador para aborda-las, pois como se
trata, então, de coisas que afetam na sociedade moderna e dizem respeito a
contemporaneidade, podem muitas vezes sofrerem mais do que deveriam da nossa
parcialidade recorrente.
Trazendo então a pauta as questões importantes
como sistemas sociais, vida em sociedade, conflitos entre nações e a própria
ideia de civilização que iremos discorrer nas próximas linhas. O ser humano
tenta há anos encontrar melhores formas de viver e conviver em seus grupos
sócias. Porem existe até hoje uma insatisfação com todas as formas já
experimentadas, nas sociedades antigas, era naturalizado viver e sobreviver
pela degradação do outro ou com o preço de isso ocorrer, tanto que relações de
subordinação entre quem detinha bens e escravizar os que pouco tinham ou até
seus inimigos era algo muito comum. Os seres humanos sempre utilizaram do grupo
para proteção, mas do individual para crescimento tentando impor sua forma de
pensar em relação aos outros, isso ocorre de forma contundente, citando como
exemplo, a atitude oportuna de se proteger em grupo que Constantino declara a
fé cristã como oficial do império romano, isso porque essa nova forma de
doutrina estava a superar a antiga fé pagã e para convir a si e a seu império
Constantino toma pra si essa doutrina até então primitiva e do povo, para um
dogma institucionalizado e coberto de “leis” que convinham ao imperador (para
manter sua hegemonia) e para o império (para não ruir antecipadamente), ele faz
um ameaça ao sistema, se tornar parte do mesmo para lhe convir, isso é algo
característico do ser humano, mas podemos encaixar a democracia a essa constatação?
Me remeteu ao império romano por conta
dos filmes em questão, e das temáticas que eles trazem, o apocalipse now mostra
justamente o cenário de guerra e a degradação que representa uma guerra, e essa
em especial que não tem consigo outra motivação que não seja a de sobreposição
de um ideal de civilização para com outro, a ideia de demonstrar superioridade
com barbárie e violência tipicamente humana, e por outro lado essa mesma
barbárie e violência sem usar arma alguma com que o sistema chamado capitalista
suga recursos e energias de pessoas em detrimento de outras.
Logo no início do filme capitalismo:
uma história de amor o autor do filme traz um paralelo de como o império romano
com toda sua amplitude e magnitude, consegue ruir após criar um sistema para
poucos enquanto tenta distrair a maioria com espetáculos em suas arenas e dessa
forma mostra a semelhança com que tais eventos ocorrem no império
norte-americano atual, nesse caso prevendo sua ruina por utilizar das mesmas
artimanhas romanas.
Portanto como já mencionei ambos os
filmes tem semelhanças justamente nas barbáries cometidas para com a sociedade,
tendo em ambos a única diferença de que um é financeiro e o outro é bélico. Mas
para além disso o sistema capitalista é desumano por não visar nada além do
lucro, lucro esse que custa caro à vida de cidadãos que somente fazem parte e
defendem esse sistema sem ao menos perceber que o sentido do mesmo nunca foi o
de criar possibilidade de harmonia social e liberdade ao seu povo, esse sistema
se visto com minucia cria muito mais presos a ele do que libertos.
Retomando então, a questão da
democracia, seria essa, após longos duzentos anos de sua evocação e expansão
mundial, um instrumento utilizado ainda por pessoas que querem manter uma
hegemonia se encaixando num sistema que deveria ser de acordo com sua teoria um
igualador político? Mas que serve de forma gritante ao chamado corporativismo,
isso mais no pós guerra. O estado democrático de direito tinha tudo para ser um
sistema perfeito, não fosse a forma como ele é manuseado no mundo, ou será o
Homem um ser puramente egoísta que não consegue se enquadrar num sistema de
participação e cooperação visando o bem comum? São perguntas pertinentes que
vem à mente quando se assiste a tais filmes e se conhece a história da segunda
metade do século XX para cá.
No filme sobre o capitalismo, temos a
questão da habitação nos EUA e de como essa afeta a população chamada de classe
média a se endividar, os bancos oferecem um refinanciamento de imóveis, ou
seja, fazer empréstimo utilizando a casa como garantia em caso de inadimplência,
isso tornou uma onda de endividados, principalmente no governo de Reagan que
segundo o autor desse documentário, foi um governante em prol de Wall Street,
(e qual não o é de alguma forma?) enfim, esse processo favorecia os corretores
de imóveis que pegavam essas casas junto aos bancos e as vendia para outro
membro da classe média que muito possivelmente ficaria refém do banco por muito
tempo.
Nesse documentário há também a tentativa
de definir o que é o capitalismo, em uma das falas é dito que esse é: como em
uma cidade que tem várias lojas e dentre essas lojas um indivíduo terá a melhor
loja e garantirá mais lucro, remetendo assim à competição e lucro. E é aqui que
temos um ponto que pode ligar tanto o filme capitalismo uma história de amor ao
filme apocalipse now, na questão da concorrência, ou seja, se o capitalismo
implica nisso, os EUA foram bons no quesito eliminar concorrências, pois após a
segunda guerra o país se consolida como o maior modelo e propagador dessa
pratica e vai buscar seguir eliminando a concorrência e diplomaticamente
imprimindo que o capitalismo é a melhor modelo econômico e maior ideologia para
o Estado, ou seja, o governante deve também reger o país nos moldes do livre
comercio e visando a expansão econômica, logo, potência econômica virou símbolo
de superioridade e progresso civilizatório. Sendo assim o cenário de guerra do
Vietnã é simbólico no exemplo de como os norte-americanos estavam focados em
controlar a forma de agir e construir civilizações no mundo. A entrada dos EUA
na guerra na região da indochina foi consideravelmente equivocada e sem
sentido, no olhar racional do caso, porém o momento que o mundo passava era de
um acirramento imenso onde o poder diplomático estava regido pela URSS e os
EUA, que influenciavam a opinião dos outros países e faziam com que esses
entrassem em guerra, justamente para tentar provar que um modelo era melhor que
o outro, sendo de certa forma o capitalismo o “vencedor”.
No filme que inicia com o napalm
devastando florestas no Vietnã, mostra como os EUA e seu exército desumaniza os
vietnamitas e fazem barbáries em nome da civilização e com sua audácia ainda
chamava-os de selvagens. O que seria selvageria senão um sistema que faz as
pessoas competirem tanto por uma vaga de emprego? Passar horas num shopping
center em filas de lojas para comprar produtos? O filme não só retrata a guerra
mais também a natureza humana.
A divisão de países asiáticos
demonstrou um poder bélico devastador com os milhões de toneladas de napalm
lançados sobre o Vietnã (mais bombas que durante a segunda guerra inteira), uma
guerra sangrenta e sem sentido algum (como todas as guerras), mas em especial
nessa, em um país longe do sonho americano e que semelhante as Coreias, foi
dividido entre comunistas e capitalistas, em que o segundo, nesse caso em
especial, perdeu de forma vergonhosa, mas os prejuízos foram vistos com mais
clareza pelos vietnamitas, que perderam milhões na guerra.