segunda-feira, 20 de maio de 2019

Contribuições da história oral




Voltando-se para a história oral, veremos que existe ainda uma desconfiança acerca desse campo e também representa uma forma relativamente nova enquanto método e que, naturalmente, sofre bastante críticas. Inicialmente, é preciso entender do que se trata, primeiro que deve haver uma distinção de tradição oral e fonte oral: a primeira se configura como testemunho oral transmitido verbalmente de uma geração para outra ou mais; já a fonte oral, é a reminiscência pessoal, sendo essa a que traz experiencias de vida do informante e não passa de geração em geração (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011).
Logo, a fonte oral está ligada com a memória coletiva e, simultaneamente, com a memória individual, mas diferente da tradição oral no próprio sentido da palavra, não está ligado à uma prática cultural onde o indivíduo compartilha suas memórias. É então nesse cenário onde se enquadra o oficio do historiador, que passa a explorar essas memórias para uso historiográfico, e sendo essa reminiscência pessoal, caberá o tipo de oralidade que será trabalhado aqui a partir da abordagem metodológica da história oral.
Trazendo para uma definição simples da história oral4, Joutard afirma se tratar de um método de pesquisa baseado no registro de depoimentos orais concedidos em entrevistas (JOUTARD apud PIERRE WALLOT, 2006). E nesse sentido, é importante explicitar que a história oral por muito tempo sofreu forte resistência no meio acadêmico, por isso, muitas produções foram feitas inclusive por pessoas que não estavam envolvidas com os métodos históricos como jornalistas, por exemplo. Somente no fim do século XX, ela começa a adentrar no espaço acadêmico da História, e se fazer presente nas discussões. Essa característica diz respeito as primeiras gerações de historiadores orais, Jourtard:
De fato, essa nova geração desenvolveu uma nova concepção muito mais ambiciosa: não mais se trata apenas de uma simples fonte complementar do material escrito, e sim “de uma outra história”, afim da antropologia, que dá voz aos “povos sem história”, iletrados, que valoriza os vencidos, os marginais e as minorias, operários, negros, mulheres. Essa história se pretende militante e se acha a margem do mundo universitário (ou é por esse rejeitada) (JOUTARD apud PIERRE WALLOT, 2006, p. 45).

Com isso, e devido a isso, a história oral recebeu muitas análises negativas durante muito tempo e esteve ligada a grupos militantes que defendiam essa história “vista de baixo” e outro que via ali uma fonte potencial, mas que era muito crítico de uma história “espontânea”. Após certo tempo, na historiografia desenvolve-se o interesse de utilizar a oralidade como fonte e, partindo disso, a mesma começa a ganhar certo espaço. Isso é decorrente de um crescente número de eventos e de interesse dos historiadores.
No entanto, é justamente com a memória que a história oral se aproxima da história geral. Isso se concretiza devido alguns acontecimentos no mundo como a bomba atômica no Japão, a descolonização e guerra na Argélia, entre outros eventos. Desta forma, a história oral foi fincando terreno na historiografia. O curioso é que os desafios ainda existem, mas em meio a tudo isso, a história servindo-se da memória e da oralidade pode trazer bons frutos para a historiografia. Para Prins:
A força da história oral é a força de qualquer história metodologicamente competente. Vem da extensão e da inteligência com que muitos tipos de fonte são aproveitados para operar em harmonia. (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011, p.196).

Então, é demonstrado aqui que mesmo com esses desafios enfrentados pela história oral, faz parte de seu desenvolvimento, assim como ocorreu (e ocorre) com a fonte escrita. Reforçamos aqui que é preciso que a oralidade seja encarada como fonte e possa ser problematizada, assim como a fonte escrita também é. Pois, ainda segundo Prins: “Uma visão muito confiável de fontes escritas sem suporte, combinada com demasiado respeito para com os historiadores, pode ser uma combinação igualmente enganadora” (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011, p. 188).


4  Muitos historiadores preferem utilizar o termo ‘fonte oral’, considerando ‘história oral’ um termo ambíguo, pois considerar somente o relato como a história no sentido de produção historiográfica seria tirar toda a teoria crítica que a história desenvolveu ao longo do último século, em usos e abusos da história oral 2006, Joutard 2006. p. 56-67. 

domingo, 7 de abril de 2019

Resenha sobre o pensamento de Hobbes, Rousseau e Locke


          

             Antes de mais nada precisamos falar sobre o Estado e de como ele surgiu em nossa sociedade a qual conhecemos. Inicialmente é preciso falar que o surgimento do estado em suas primeiras concepções não pode ser alcançado devido à falta de fontes e registros deixados, porem são muitas as teorias que fundamentam e buscam entender como o mesmo foi criado e se estabeleceu. Existe teorias que tentam embasar a formação dessa organização estatal como a teoria familiar, teoria de origem patrimonial e teorias de força.
             Dado um princípio breve sobre as teorias e histórias que remetem a formação do Estado vamos dar início a um diálogo entre os pensadores modernos sobre o que veio a ser o Estado moderno. Porem antes disso é importante lembrar o que se caracteriza como Estado moderno, ele surgiu no contexto da idade média em direção ao que os historiadores chamam de Renascimento, onde ainda existia o monopólio do poder familiar do rei e as monarquias estavam a muito tempo estabelecidas no continente europeu, portanto o sistema econômico vigente era o feudal com a nobreza comandando as grandes áreas de plantação e utilizando de trabalho sérvio para fazer o sistema ocorrer de fato.
              Lembrando que trabalhamos esses conceitos na realidade europeia somente, não incluindo os Estados do continente africano nem asiático que estão vivendo em outros contextos na época em que pensadores estavam conceituando temas como Estado e participação popular dentro do mesmo.
              Com isso temos a nossa maior referência de tomada de poder no século XVIII que é a queda da bastilha e a revolução francesa que destitui o poder monárquico total e institui posteriormente o que chamamos de monarquia constitucionalista que escreve as leis maiores da nação e tira poderes totais do rei que antes era absolutistas e faz surgir o pensamento liberal na Europa.
              Entre esses pensadores os três que iramos focar que são; Hobbes, Rousseau e Locke que irão teorizar sobre as questões que já introduzi nessa primeira parte, uma das coisas que eles tem em comum é o pensamento de que o Estado surge de um contrato social. Para Hobbes o ser Homem tem um desejo de destruição e de dominar e perpetuar o domínio sobre seu semelhante e é aí que entra o Estado como um poder que é superior ao Humano para conter seus desejos. Enquanto Rousseau acredita que o Homem é bom, porem a sociedade o corrompe, ele afirma também que todo poder emana do povo e o Estado é nada mais que a vontade de coletivizar o que antes era individual, como cita a questão de que os parlamento nada mais é do que indivíduos que representam o anseio dessa coletividade onde o povo entrega sua liberdade a alguns indivíduos selecionados para ocupar aqueles cargos.
              Já Locke afirma que o Estado é necessário não pela natureza má do Homem, mas por uma necessidade de haver uma instância acima do julgamento parcial de cada cidadão. Ele é um grande crítico do absolutismo, acredita em rotatividade de poder e que o Estado preserve o direito à liberdade e à propriedade privada e que as leis devem ser fruto da vontade da assembleia e não de um soberano.
              Cada pensador citado tem pensamentos em comum, porem divergem consideravelmente em outros, como por exemplo Hobbes que teoriza em prol de legitimar as ações do rei, já Locke como falado é anti absolutismo e com pensamentos liberais e Rousseau afirma que o Homem nasce livre e é um dos primeiros a considerar o povo como a melhor forma de governo. Na questão de liberdade eles diferem em questões como o Homem após o contrato social não poder exigi-la já outro dirá que a liberdade virá a partir desse contrato, enfim as convergências aqui são primordialmente em relação as ideias consequenciais da formação do Estado e não ele em si.
               Rousseau por exemplo traz questões como a democracia representativa e democracia direta e teoriza sobre elas na tentativa de ilustrar que a liberdade existe de forma sistema agora com a criação do Estado, porem nos remete pensar sobre o que é de fato esse sistema que estamos envoltos e de que cada teoria posta por ambos nos traz grandes contribuições e que devemos hoje buscar trazer para nossas realidades contemporâneas no intuito de nos instruirmos sobre a realidade que nos cerca.               

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A história dialogando com a memória



Sabendo que a partir dos vestígios do passado que se pode desenvolver a pesquisa histórica, cabe destacar a memória[1] como um compartilhamento de lembranças e discursos acerca do passado. Segundo Le Goff, a memória se comporta como um olhar para o passado ancorado nos interesses e visões de mundo do presente, sem muito senso crítico e sem método, sendo então um tipo de fonte ao qual se dispõe para uso da história, mas não a história em si. (LE GOFF, 2012).
Ainda sobre a memória, Halbwachs (2006) diz que são construções socialmente coletivas, pois determinam o que é memorável e os lugares onde esta será preservada. Portanto, novamente vemos que a memória está ligada aos grupos sociais à medida que é compartilhada coletivamente, não somente com o armazenamento de informações do indivíduo em sua particularidade. Todavia, a socialização da mesma, ao qual recebeu o nome de memória coletiva, só é possível se houver compatibilidade indenitária entre a memória socializada e os indivíduos com suas próprias memórias individuais, como é destacado a seguir:
Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser constituída sobre uma base comum. (HALBWACHS, 2006, p. 39) 

Sendo assim, a memória coletiva é fundamentalmente dependente do indivíduo, ou seja, da reminiscência individual, para que então, a partir disso, se possa formar identidade com outros indivíduos. Logo, esses dois tipos (individual/coletiva), mantém uma interdependência a medida que as lembranças de uma pessoa entram em contato com as de grupos, coexistindo ao longo da vida dos sujeitos.
A questão da memória é muito importante, pois é necessário que haja uma clareza quanto a sua distinção com a história, enquanto ramo do saber. Quando nos referimos a semelhante questão, vemos, novamente em Le Goff (2012) que a memória tem um elemento afetivo muito forte e normalmente atende a demandas do presente: já a história seria uma reconstrução do passado que deve ser feita de forma crítica e com o respaldo teórico e metodológico, sujeita ainda às análises de outros acadêmicos da área. Portanto, a memória vista aqui é tida como elemento auxiliar para produção historiográfica.
Já para Pierre Nora (1993) existe apenas os chamados locais de memória; e não mais os meios desta, pois, o autor acredita que não existe mais, tendo sido esfacelada pela mundialização e pela colonização, resultando no contato entre as diversas culturas e/ou nacionalidades. Nessas circunstancias, segundo Nora, existem somente lugares de memória - partindo do princípio que nos transportando para dentro da história, e, não mais da memória (NORA, 1993). Nesse trecho, vemos o contraponto muito evidente do pensamento de Nora (1993, p. 09) em relação ao que ele formula sobre a distinção entre história e memória:
Memória e história: longe de serem sinônimos, tomamos consciência que tudo opõe uma à outra. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado. (Nora, 1993, p. 39)

Fica notório a defesa do autor para com a memória, que é colocada como uma forma de originalidade, enquanto a história é algo sintético e que, portanto, faz perder a “magia” desta. Por seu lado, Le Goff diz que existe duas histórias: a da memória e a dos historiadores, tendo a segunda a missão de “esclarecer a primeira, e ajudá-la a retificar seus erros” (LE GOFF, 2012, p. 31). Mas, em seguida, surge a dúvida se a história também não cometeria erros e Le Goff defende que desde que existe a história enquanto narrativa e/ou ciência, a mesma esteve (e está) exposta a críticas sucessivas de outros historiadores.
Nesse sentido, a memória não teria como, sozinha, suprir o desejo de entendimento do passado, pois diferente da forma popular que esta tem, a história requer preparo e pesquisa. Pois, pela natureza da memória de estar no campo da seletividade narrativa e desordenada, a história tem o papel da busca constante da cientificidade, onde tenta organizar e analisar, para posteriormente, apresentar seus resultados e servir como material de análise para outros historiadores.
Então, dentro da História, a memória é um tipo de vestígio e não pode ser encarada como um discurso histórico, que segundo Marc Bloch (2006) as ações humanas são vestígios e o historiador não se limitará a papéis. Então, já trazemos aqui a memória como ela é mais associada na atualidade; como uma fonte histórica, como um vestígio. E, sobre a objetividade, no que diz respeito ao trabalho historiográfico, Le Goff afirma que:
A objetividade histórica, objetivo ambicioso, constrói-se pouco a pouco através de revisões incessantes do trabalho histórico, laboriosas verificações sucessivas e acumulação de verdades parciais. (LE GOFF, 2012, p. 34). 

Sendo a história uma busca por esclarecimentos e trabalho que requer métodos, é crucial que se faça, nessa busca, indagações e formulações que gerem debates, e que seja como a própria história é, algo cronologicamente constante.
É importante ressaltar também, que a própria memória tem ligação com o poder, não à toa que histórias de sociedades morrem junto a suas aristocracias Le Goff (2012). Ou seja, além da posse do poder administrativo, quem fica à frente do poder executivo municipal, carrega toda uma carga de memória que será, como vimos antes, o norte da narrativa do passado local, portanto é importante para uma pesquisa, entender que existe um lugar de memória na localidade que está ligada ao poder. Em um trecho interessante de Le Goff (2012) que é a seguinte: Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos Homens. [...] a função da História não é glorificar o passado, ela serve para analisar e entender.
Dessa forma, a História enquanto disciplina de estudo, tem de buscar essa análise e não simplesmente levar toda aquela carga local como algo que está acabado, mas pelo contrário, está em (re)construção.



[1]Segundo Le Goff (2012) a memória coletiva, (pois, é essa a qual interessa-nos delimitar)

domingo, 16 de dezembro de 2018

Analise de filmes: Capitalismo: uma história de amor (2009) e apocalipse now (1979)


     
         Para iniciar, não tem como negar a grande relação que há entre os filmes assistidos e as questões da sociedade moderna, primeiro porque são temas recorrentes e que até hoje não perderam de vista suas discussões, e segundo que, são temas caros a vida em sociedade e que fazem recorrer a uma certa minucia do historiador para aborda-las, pois como se trata, então, de coisas que afetam na sociedade moderna e dizem respeito a contemporaneidade, podem muitas vezes sofrerem mais do que deveriam da nossa parcialidade recorrente.
      Trazendo então a pauta as questões importantes como sistemas sociais, vida em sociedade, conflitos entre nações e a própria ideia de civilização que iremos discorrer nas próximas linhas. O ser humano tenta há anos encontrar melhores formas de viver e conviver em seus grupos sócias. Porem existe até hoje uma insatisfação com todas as formas já experimentadas, nas sociedades antigas, era naturalizado viver e sobreviver pela degradação do outro ou com o preço de isso ocorrer, tanto que relações de subordinação entre quem detinha bens e escravizar os que pouco tinham ou até seus inimigos era algo muito comum. Os seres humanos sempre utilizaram do grupo para proteção, mas do individual para crescimento tentando impor sua forma de pensar em relação aos outros, isso ocorre de forma contundente, citando como exemplo, a atitude oportuna de se proteger em grupo que Constantino declara a fé cristã como oficial do império romano, isso porque essa nova forma de doutrina estava a superar a antiga fé pagã e para convir a si e a seu império Constantino toma pra si essa doutrina até então primitiva e do povo, para um dogma institucionalizado e coberto de “leis” que convinham ao imperador (para manter sua hegemonia) e para o império (para não ruir antecipadamente), ele faz um ameaça ao sistema, se tornar parte do mesmo para lhe convir, isso é algo característico do ser humano, mas podemos encaixar a democracia a essa constatação?
       Me remeteu ao império romano por conta dos filmes em questão, e das temáticas que eles trazem, o apocalipse now mostra justamente o cenário de guerra e a degradação que representa uma guerra, e essa em especial que não tem consigo outra motivação que não seja a de sobreposição de um ideal de civilização para com outro, a ideia de demonstrar superioridade com barbárie e violência tipicamente humana, e por outro lado essa mesma barbárie e violência sem usar arma alguma com que o sistema chamado capitalista suga recursos e energias de pessoas em detrimento de outras.
        Logo no início do filme capitalismo: uma história de amor o autor do filme traz um paralelo de como o império romano com toda sua amplitude e magnitude, consegue ruir após criar um sistema para poucos enquanto tenta distrair a maioria com espetáculos em suas arenas e dessa forma mostra a semelhança com que tais eventos ocorrem no império norte-americano atual, nesse caso prevendo sua ruina por utilizar das mesmas artimanhas romanas.
        Portanto como já mencionei ambos os filmes tem semelhanças justamente nas barbáries cometidas para com a sociedade, tendo em ambos a única diferença de que um é financeiro e o outro é bélico. Mas para além disso o sistema capitalista é desumano por não visar nada além do lucro, lucro esse que custa caro à vida de cidadãos que somente fazem parte e defendem esse sistema sem ao menos perceber que o sentido do mesmo nunca foi o de criar possibilidade de harmonia social e liberdade ao seu povo, esse sistema se visto com minucia cria muito mais presos a ele do que libertos.
         Retomando então, a questão da democracia, seria essa, após longos duzentos anos de sua evocação e expansão mundial, um instrumento utilizado ainda por pessoas que querem manter uma hegemonia se encaixando num sistema que deveria ser de acordo com sua teoria um igualador político? Mas que serve de forma gritante ao chamado corporativismo, isso mais no pós guerra. O estado democrático de direito tinha tudo para ser um sistema perfeito, não fosse a forma como ele é manuseado no mundo, ou será o Homem um ser puramente egoísta que não consegue se enquadrar num sistema de participação e cooperação visando o bem comum? São perguntas pertinentes que vem à mente quando se assiste a tais filmes e se conhece a história da segunda metade do século XX para cá.
        No filme sobre o capitalismo, temos a questão da habitação nos EUA e de como essa afeta a população chamada de classe média a se endividar, os bancos oferecem um refinanciamento de imóveis, ou seja, fazer empréstimo utilizando a casa como garantia em caso de inadimplência, isso tornou uma onda de endividados, principalmente no governo de Reagan que segundo o autor desse documentário, foi um governante em prol de Wall Street, (e qual não o é de alguma forma?) enfim, esse processo favorecia os corretores de imóveis que pegavam essas casas junto aos bancos e as vendia para outro membro da classe média que muito possivelmente ficaria refém do banco por muito tempo.
        Nesse documentário há também a tentativa de definir o que é o capitalismo, em uma das falas é dito que esse é: como em uma cidade que tem várias lojas e dentre essas lojas um indivíduo terá a melhor loja e garantirá mais lucro, remetendo assim à competição e lucro. E é aqui que temos um ponto que pode ligar tanto o filme capitalismo uma história de amor ao filme apocalipse now, na questão da concorrência, ou seja, se o capitalismo implica nisso, os EUA foram bons no quesito eliminar concorrências, pois após a segunda guerra o país se consolida como o maior modelo e propagador dessa pratica e vai buscar seguir eliminando a concorrência e diplomaticamente imprimindo que o capitalismo é a melhor modelo econômico e maior ideologia para o Estado, ou seja, o governante deve também reger o país nos moldes do livre comercio e visando a expansão econômica, logo, potência econômica virou símbolo de superioridade e progresso civilizatório. Sendo assim o cenário de guerra do Vietnã é simbólico no exemplo de como os norte-americanos estavam focados em controlar a forma de agir e construir civilizações no mundo. A entrada dos EUA na guerra na região da indochina foi consideravelmente equivocada e sem sentido, no olhar racional do caso, porém o momento que o mundo passava era de um acirramento imenso onde o poder diplomático estava regido pela URSS e os EUA, que influenciavam a opinião dos outros países e faziam com que esses entrassem em guerra, justamente para tentar provar que um modelo era melhor que o outro, sendo de certa forma o capitalismo o “vencedor”.
          No filme que inicia com o napalm devastando florestas no Vietnã, mostra como os EUA e seu exército desumaniza os vietnamitas e fazem barbáries em nome da civilização e com sua audácia ainda chamava-os de selvagens. O que seria selvageria senão um sistema que faz as pessoas competirem tanto por uma vaga de emprego? Passar horas num shopping center em filas de lojas para comprar produtos? O filme não só retrata a guerra mais também a natureza humana.
        A divisão de países asiáticos demonstrou um poder bélico devastador com os milhões de toneladas de napalm lançados sobre o Vietnã (mais bombas que durante a segunda guerra inteira), uma guerra sangrenta e sem sentido algum (como todas as guerras), mas em especial nessa, em um país longe do sonho americano e que semelhante as Coreias, foi dividido entre comunistas e capitalistas, em que o segundo, nesse caso em especial, perdeu de forma vergonhosa, mas os prejuízos foram vistos com mais clareza pelos vietnamitas, que perderam milhões na guerra.

domingo, 9 de setembro de 2018

Entre a democracia e a faca

         


          Vemos no país uma polarização já conhecida e que a muito não se fazia. Lembro, evidentemente da época que antecedeu ao golpe de 1964 em que muita movimentação de lideranças políticas utilizavam, claramente de forma genérica os dizeres 'esquerda' e 'direita', porem nos dias de hoje de forma jamais vista se pensa sobre isso e as noticias se disseminam por toda parte. Na verdade o que mudou dos tempos de Jango para cá é a capacidade de difusão dessas informações, pois o simplismo e alienação sobre espectro político continuam os mesmos.  
      Outro fator importante é a quantidade assustadora de analfabetos no país com dados abaixo retirados do IBGE:

O número de analfabetos no Brasil permaneceu estável entre 2013 e 2014. Segundo dados do PNAD, 8,3% dos brasileiros com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever no ano passado - ou o equivalente a 13,2 milhões de pessoas. A região Nordeste ostenta os piores índices de analfabetismo do país. No total, 16% dos adultos estão nessa condição. Entre os homens nordestinos, a taxa é de 18,5% que não sabem ler
        
        São números alarmantes e que não podem ser aceitos com normalidade e serem tratados como algo rotineiro quase que impronunciável nos meios de comunicação, estamos formando e formando mal. Isso é um fato, infelizmente, mas sabemos também que houve avanços se comparado ao início do século XXI. Algo curioso na observação da política brasileira atual é que a grande revolução da informação propagada em tempo real formou um verdadeiro pente fino para os candidatos à presidência, pois a qualquer momento pode ser acessado informações sobre seus respectivos passados, sobre suas atitudes, algo que somente os detentores da grande mídia podiam há alguns anos atrás. 
        
            Mas isso não foi o suficiente para diluir a alienação do povo, isso porque a nação brasileira ainda age na política como que em uma torcida de futebol estasiado com os acontecimentos, fazendo com que em certos momentos perca a racionalidade durante o período de campanha, mas esse fenômeno não é exclusivo do brasileiro, sabemos que em todas as nações há uma certa atmosfera diferente entre esses períodos. E o que faz ser curioso no Brasil é essa contradição recorrente de pensamentos de mudança e equívocos quanto de fato a existência dessa mudança em certos candidatos que visivelmente não demonstram essa aclamação popular. A sociedade brasileira ao que parece está iniciando sua descoberta interior agora, depois de mais de 500 anos desde a chegada do europeu que por aqui se apropriou. O que de fato não deixa de ser positivo, mas dentro da história o que temos é a questão dos interesses em validar certos aspectos da história por parte de alguns e a exclusão de outros e esse jogo é perigosíssimo para uma nação, pois o povo ao qual não lhe foi dado o poder de conhecer seu passado pode justamente se iludir e o ciclo vicioso de omissão da propria história ocorrer novamente.
              
             Digo isso porque não tivemos um partido dos panteras negras, não tivemos um movimento feminista atrelado ao embate do poder, não tivemos uma reconfiguração do nosso passado, tudo isso crucial para uma sociedade mais consciente de si e que saiba o que realmente representa essas terras latino americanas. O povo é omisso de seu passado, a escravidão nesse país nunca foi colocado em pauta na vida cotidiana. Só o que vemos tipicamente como nos vizinhos latino americanos é a falta de políticos conscientes e preparados. Sendo assim não somente o povo precisa está lucido do lugar que vive e da realidade atual, mas também os que almejam ocupar cargos públicos e que em sua grande maioria se mostra amador para a vida publica e alienado, assim como uma boa parte de seus eleitores. 
          
               A campanha politica ruma para suas ultimas semanas no primeiro turno e o Brasil está em jogo aqui. as pessoas dessa latino America (que o próprio brasileiro não tem o sentimento de pertença no continente)  precisam racionalizar na hora do voto, não é só o chefe de Estado é preciso votar bem para o congresso nacional. O brasil que eu quero (referente aquela patética campanha da globo) é aquele que profissionalize seus políticos e que não se deixe levar pela ação anti ética, um país com pensamento de grandeza (não o pensamento norte-americano) que se veja como realmente é, ou seja, o maior país da America do sul e busque ser uma nação grande socialmente diferente dos EUA que só querem dinheiro e esquecem da cultura e da perseguição da igualdade e da qualidade de vida. 
               
              Já fomos taxados de república das bananas e logo vemos que mesmo que não seja no mesmo contexto de quando foi dito ela se encaixa muito bem. Não parece e não deveria parecer para a população que seria um salvador da pátria que iria salvar o país dessa triste realidade, mas para muitos a irracionalidade já virou rotina e nesse momento vivemos entre a democracia e a faca, entre a mudança e a contradição. Nada mais brasileiro que querer e não agir de acordo com a mudança, nada mais obvio que estarmos entre garotinho e Eduardo Paes, entre Collor e Calheiros e enfim, nada mais convencional do que focar em presidente e votar para o congresso em figuras alegóricas e despreparadas para seus cargos. Votar sem espectro político, sem intenções pessoais vendendo a postura a um engravatado que nem sabe pelo quê luta senão por si. 


O provocador.









terça-feira, 21 de agosto de 2018

Perry Anderson sobre Inglaterra


       



        Antes de falar sobre o texto, trago informações sobre o autor que é um historiador inglês e ensaísta político com viés marxista. É editor de revista e professor de universidade e com diversos livros publicados dos mais variados temas e seu irmão também é historiador.
          Agora voltando para o texto que é bem direto se tratando de absolutismo, como o próprio título sugere; Linhagens do Estado absolutista. Um livro que passeia pela questão do absolutismo em todo o continente europeu e de cada especificidade. Portanto o autor busca em cada capitulo descrever governos absolutistas existentes em todo o território da Europa, desde sua instauração, até o colapso dos mesmos, sendo que como apresentado no livro vários desses estados com características absolutistas vieram a cair apenas no século XX, ou seja, nesses casos são séculos de história sendo descritos em cada capitulo.
           Como já mencionei a organização do texto tende a ir de acordo com a questão temporal, mas nem sempre isso ocorre, podendo ter momentos comparativos de governos e sem tópico algum para descrever a temática abordada em cada etapa dos capítulos. Fazendo muita das vezes com que um leitor que nunca ouviu falar do assunto se perca em uma ou outra expressão ou até fatos em si, pois é um bom texto de pesquisa bibliográfica e para adquirir conhecimento sobre os assuntos abordados nele seria interessante pesquisar um pouco mais sobre os termos absolutismos e sobre a Europa até posterior ao medieval, pois o autor faz muito essa ponte entre o medieval e o renascimento e até de antes do medievalismo, dependendo do país ou região abordados. Falo isso pois li mais de um capítulo do livro não somente o da resenha, portanto mesmo o livro sendo grande após a leitura de um novo capitulo o leitor vai detectando padrões de abordagem.
            E com isso vamos tratar do que é de fato o texto, senão um grande conglomerado de acontecimentos de um período que remete a formação política e diplomática dos países que são mencionados. E se tratando da busca por um absolutismo em todo o continente europeu e de descrever cada um deles, Perry trata da ilha inglesa com cautela e fala da força da monarquia feudal isso já em comparação com a França, isso será feito muitas vezes, a análise comparativa na maioria delas trazendo a França como modelo do absolutismo mais forte da Europa.
         

             Com isso passa a se descrever a capacidade dessa monarquia inglesa no período feudal e de como isso fazia dela um país com suas peculiaridades e diferenciações com sua maior rival a França. O que não poderia faltar se tratando da Inglaterra, pois teve todo o contexto da guerra dos cem anos e de toda uma atmosfera de rivalidade existente entre esses dois países.
              E essa monarquia forte segundo o autor, deu a Inglaterra mais abertura para aventuras territoriais no continente europeu, muito mais do que a França. Mas se tratando de absolutismo Perry Anderson afirma que era o mais fraco de toda a Europa e o de menor duração. Descrito também que a Inglaterra foi poupada dos perigos ao governo unitário mais uma vez utilizando-se da comparação. O autor buscou essa diferenciação dos ingleses e porque a ilha passou por um processo bem mais diferenciado nas questões regimentais ao longo dos séculos que se caracteriza o renascimento.
               A partir daí passa-se a tratar dos governantes monarcas e de como foi suas formas de governar e as consequências da mesma, foi citado a questão da Inglaterra ter parlamentos medievais e isso não era uma peculiaridade, mas a forma de organização dos mesmos o era, pois ocorria de forma unificada e a assembleia tinha como sede Londres e em nenhum local mais, isso se mostrava como um diferencial, mas esses parlamentos eram desativados algumas vezes dependendo de quem governava e não tinha força regimentar e por muitos governos foi somente alegórico, tendo mudanças com o rei Henrique VII que segundo o autor traz uma “nova monarquia” no sentido de ser de um clã e governar com características de outro.
                No militarismo o governo de Henrique se destaca por sua interferência externa e falta de atividade da assembleia, porém, em contra partida, o Henrique VIII ao que parece ensaiou uma consolidação do absolutismo, fazendo parte da dinastia Tudor. O Henrique VIII fez o parlamento ser duradouro, dissolveu os mosteiros e suas propriedades foram incorporadas ao Estado, criou um sistema de polícia secreta para delações e prisões, porém não havia ali um aparelho militar substancial nas palavras do autor.
                 Vai ser falado também do governo de Elizabeth I que após o fim do seu reinado a Irlanda foi anexada juntando-se assim ao País de Gales que havia sido o feito por Henrique VIII. Dentro do texto vai sendo traçado os rumos do absolutismo breve da ilha inglesa e que sua pouca representatividade diplomática passava pelo contexto internacional, onde França e Espanha se colocavam como as grandes potências. Outro fator importante que difere de tais potências é a questão da religiosidade que é abordada no texto de como esses conflitos de um governo protestante e a questão da terra passou por mudanças e de como isso afetava esse frágil absolutismo. E para finalizar, o texto é bom de ser lido, contém diversas informações e auxilia no conhecimento do período, mas que sua forma mais pré-estabelecida de não informar sobre detalhes faz quem não está adentrado ao contexto de não conseguir formar conceitos chave, mas a nível acadêmico é um texto que ajuda bastante para um melhor entendimento do breve absolutismo inglês que foi derrubado por uma revolução burguesa no centro da nação mesmo que as maiores preocupações fossem com suas regiões periféricas de extremo embate tanto político como religioso.                              

Aulas de reforço

aulas acessíveis e com retorno prático no desempenho