O texto foi escrito pelo professor e historiador da USP Marcos Francisco Napolitano de Eugênio que é doutor e mestre em história social pela universidade de São Paulo onde se graduou também em história. Atualmente é professor de história do Brasil independente e também docente-orientador no programa de História social da USP. Ele tem trabalhos com ênfase no Brasil independente mais especificamente republicano com abordagens sobre música e cinema e trabalhos sobre o período da ditadura civil-militar brasileira.
Napolitano nos traz através desse livro um novo olhar sobre o período denominado republica velha em seu primeiro capitulo onde diz que a republica se beneficia das estruturas arcaicas da monarquia. Logo como introdução afirma que antes de se falar em republica é preciso entender o que significou a monarquia brasileira e em seguida responde que essa criou, uma estrutura jurídica e política que se utilizou do vocabulário liberal da época. E que o império trouxe a independência política ao Brasil, porém, pouco fez para mudar as conjunturas econômicas e sociais impostas nos tempos de colônia.
E sendo assim a republica representava o fruto da economia escravista e da crise do império. Portanto é nesse meio que se firma esse evento que nos dias de hoje chamamos de golpe contra a monarquia e que foi liderada por um monarquista, mostrando Portanto Napolitano inicia com uma introdução acerca desse período republicano no Brasil, que é, segundo ele, um momento de incertezas e conflitos de diferentes grupos ditos republicanos, sendo assim ele nos aproxima da dimensão do que estava acontecendo no país com grupos especificamente três que divergiam sobre como o Estado deveria se portar na economia política e socialmente nesse novo regime que se iniciava, sendo eles os militares e parte da classe media positivistas, os liberais, principalmente paulistas e os chamados jacobinos, referencia a revolução francesa e que representavam os radicais republicanos.
Com isso o texto de Marcos Napolitano é dividido cronologicamente, porem, com comparações entre um período e outro e dando dimensão do todo. Primeiro fica claro o desejo de se esclarecer bem o período que vai desde o golpe republicano até o que ele chama de inicio não pontual, mas conceitual do modernismo brasileiro, que é a partir do inicio dos anos 20 do século passado.
Como já foi dito antes de querer fazer qualquer analise da republica, se inicia contextualizando o que representou a monarquia para o Brasil. Nesse sentido é fato que não havia um desejo revolucionário de mudança nas estruturas de poder do país e sim, de organização governamental. O desejo se tratando principalmente desses positivista que estão totalmente ligados ao golpe era o de reformular a governabilidade, tendo alguns inclusive flexíveis a mudanças impostas por dom Pedro II, ou seja, pouco estava importando o sistema de governo, seja monarquia, seja republica, uma parcela desses personagens do golpe queriam um poder centralizador e federalista que buscasse alfabetizar as classes e algumas reformas sociais, onde o estado deveria ser o motor do patriotismo e nacionalismo.
Mas existe também, e de forma curiosa a frase colocada no texto de que até Pedro II estava cansado da monarquia, ou seja, de forma ilustrativa vemos que havia um desgaste do regime que existia, ate antes do fim da escravidão, mas que após a abolição parece que se intensificou o desgaste. Essa chaga social que o autor afirma que é a escravidão, teve finalmente seu fim, mas pelo que dá a entender, parece que a monarquia perdeu ali sua identidade. Sem trabalho escravo e com um aumento significativo de uma elite em ascensão que eram os paulistas do café somado aos grupos militares, ficou claro que não haveria desta forma, como manter intacto o regime monarquista.
E vai ser nesse contexto que o autor irá analisar esses grupos e os interesses dos mesmos, primeiro que o autor do golpe, Deodoro, que não era um republicano e inclusive não parecia indiferente com a monarquia, porem pelas fontes que Napolitano trás, o que ocorreu foi uma tomada de decisão pessoal por parte de Deodoro, que tinha derrubado o visconde de Ouro Preto, mas ao saber que seu inimigo pessoal seria o substituto ele então decide que também romperia com o sistema monarquista. O curioso é isso ter ocorrido no mesmo dia. Isso desmistifica aquilo que a tanto tempo foi levado aos livros, que é essa imagem de uma republica que nasceu de uma revolução aos moldes da tentativa que ocorreu em 1917 em Pernambuco, ou mesmo as republicas proclamadas nos Países vizinhos na America Latina. Mas o que vemos nesse texto é que, na verdade essa revisita histórica que não de agora, mas desde a grande influência Marxista na historiografia brasileira da década de 1970 que vem fazendo não só o campo acadêmico, mas também a população em geral, ter uma dimensão diferente do que foi e o que representou a proclamação da republica brasileira.
Seguindo com o decorrer do golpe, vem as indagações acerca do novo regime, o que iria ocorrer então de novidade, qual posição a republica vai ter em relação aos ex escravizados, tudo isso será posto em discussão no texto. Justamente aqui que se encaixa a dimensão dessas divisões ideológicas desses grupos que pensaram sobre que rumos deveriam tomar o sistema republicano recém instaurado. Não havia um bloco político e ideológico coeso e único que pudesse ganhar hegemonia. E os rumos seguiram cada vez mais para as pautas conservadoras e oligárquicas, isso só provava a real intenção puramente governamental no fim das contas.
A questão da imigração e o fim da escravidão também são abordados. Sendo que o país conseqüentemente com esses eventos, inicia-se mudanças sociais e culturais. o incentivo a imigração ganhou força no inicio da republica. A população afro descendente se caracterizava como maioria num país com maioria analfabeta, inclusive os brancos, sendo esses os que irão abraçar as teorias racistas vindas da Europa. Assim a questão social vai ter muita influencia das formas de governar e por isso que mesmo dedicando um capitulo para a parte social e cultural a mesma não se dissolve da questão política.
A republica foi dividida no texto em três períodos, a consolidação da ordem republicana, a institucionalização da política liberal-oligárquica e a crise dessa mesma institucionalização. Sendo assim, o primeiro período se caracteriza pela queda de Deodoro e a ascensão de Floriano Peixoto ao poder. Esse ultimo tinha simpatia com grupos dissidentes dos positivistas, mas que acabou por se unir aos liberais oligárquicos. Uma característica desse período também foram os conflitos e disputas locais nos estados e as disputas municipais que ficavam a cargo dos chamados coronéis.
Foi citado também a guerra de canudos, um movimento vindo das camadas sociais mais pobres e que demonstram também essa instabilidade inicial da republica que em todas as camadas sociais havia embates e sendo assim, canudos representa um descontentamento com um país que não consegue ser homogêneo, muito menos ter uma integridade governamental que faça com que as camadas sociais não estejam insatisfeitas, até porque o que ocorre é uma omissão do estado em relação as mesma e isso só se intensifica nessa primeira republica.
Foi preciso organizar de fato a republica, é então que se inicia a produção de uma constituição que iria dar legitimidade ao novo regime. Nela houve a tentativa de excluir coisas que remetessem ao sistema monárquico, porem coisas cruciais como o voto do analfabeto e o fim do sistema de exceção não acabaram. Mas foi o fim do senado vitalício e o poder moderador.
Com isso o governo de Floriano Peixoto representou a transição do chamado governo da espada para o condomínio dos fazendeiros, como bem coloca o autor. Floriano representava a esperanças dos republicanos radicais por um governo jacobino, mas as convicções do mesmo parecem que não faziam jus ao apelido de “marechal de ferro” que logo fez acordos com os liberais e demonstrou pacifica transição para o paulista Prudente de Morais.
Mas é então no governo do seu sucessor Campos Sales que a republica irá conseguir se consolidar e manter sua estrutura por um bom período. Isso só ocorreu com a política inaugurada por ele, chamada de política dos governadores, nela os estados ganham autonomia e são subordinados de acordo com seu poder econômico. Nesse sentido os estados apóiam o governo federal vigente sendo ele assim determinado pela força econômica muito maior de São Paulo e Minas Gerais, porem não só deles, havendo uma coalizão de estados e sem o apoio dos mesmos não teria como os dois maiores governarem. Mas algo que se intensificou com essa política foi a fraude eleitoral, pois foram criados mecanismos que faziam com que caso ocorressem vitorias de candidatos que não fossem apoiadores do governo federal se pudesse afirmar que o candidato era inelegível.
Portanto essa política é justamente o que caracterizou a republica que ficou conhecida como café com leite e que também é desmistificada no texto quando Napolitano esmiúça o sistema político brasileiro desse período, onde existia uma coalizão entre os estados de SP, MG, PE, BA, RS e RJ. Nesse caso, o presidente viria a ascender ao poder pelos estados mais fortes na economia, mas a partir de um acordo entre estados e não somente entre os dois principais, sendo o caso de um dos presidentes ser gaucho e ai então que houve desavenças e descontentamento por parte de Minas e São Paulo que firmaram o acordo de Ouro fino. Mas dada a situação ao que parece há muito mais no jogo político que somente esses dois estados e sua influencia e isso é positivo, essa revisitação histórica é natural e irá ocorrer na historiografia de diversos períodos.
É tanto que logo em seguida é abordado os estudos sobre a história social e cultural dessa época, visando que a pouco tempo não se imaginava que havia organizações sindicais e de trabalhadores no inicio do século XX e elas não só existiam como fazem parte do cotidiano das grandes cidades do período.
É então que temos a questão ideológica em cena e que ganhara forma no país com os presidentes que sucedem Campos Sales. Isso se inicia com Rodrigues Alves e sua política de higienização das cidades brasileiras. A demolição principalmente na capital federal de cortiços no centro e a invasão de casas para limpeza vão acarretar em crises que marcam a republica velha. Desde a revolta da vacina passando pela revolta da chibata dentre outros casos que provam que o período foi conflituoso.
NAPOLITANO, Marcos. História do Brasil republica: da queda da monarquia ao fim do estado novo. 1º. São Paulo: contexto, 2017. 7-70p.