Voltando-se para a história oral, veremos que
existe ainda uma desconfiança acerca desse campo e também representa uma forma
relativamente nova enquanto método e que, naturalmente, sofre bastante
críticas. Inicialmente, é preciso entender do que se trata, primeiro que deve haver
uma distinção de tradição oral e fonte oral: a primeira se configura como testemunho
oral transmitido verbalmente de uma geração para outra ou mais; já a fonte oral,
é a reminiscência pessoal, sendo essa a que traz experiencias de vida do
informante e não passa de geração em geração (GWYN PRINS apud VAN VANSINA,
2011).
Logo, a fonte oral está ligada com a memória
coletiva e, simultaneamente, com a memória individual, mas diferente da
tradição oral no próprio sentido da palavra, não está ligado à uma prática cultural
onde o indivíduo compartilha suas memórias. É então nesse cenário onde se
enquadra o oficio do historiador, que passa a explorar essas memórias para uso
historiográfico, e sendo essa reminiscência pessoal, caberá o tipo de oralidade
que será trabalhado aqui a partir da abordagem metodológica da história oral.
Trazendo para uma definição simples da
história oral4, Joutard afirma se tratar
de um método de pesquisa baseado no registro de depoimentos orais concedidos em
entrevistas (JOUTARD apud PIERRE WALLOT, 2006). E nesse sentido, é importante
explicitar que a história oral por muito tempo sofreu forte resistência no meio
acadêmico, por isso, muitas produções foram feitas inclusive por pessoas que
não estavam envolvidas com os métodos históricos como jornalistas, por exemplo.
Somente no fim do século XX, ela começa a adentrar no espaço acadêmico da
História, e se fazer presente nas discussões. Essa característica diz respeito
as primeiras gerações de historiadores orais, Jourtard:
De fato, essa nova geração desenvolveu uma nova concepção muito mais
ambiciosa: não mais se trata apenas de uma simples fonte complementar do
material escrito, e sim “de uma outra história”, afim da antropologia, que dá
voz aos “povos sem história”, iletrados, que valoriza os vencidos, os marginais
e as minorias, operários, negros, mulheres. Essa história se pretende militante
e se acha a margem do mundo universitário (ou é por esse rejeitada) (JOUTARD
apud PIERRE WALLOT, 2006, p. 45).
Com isso, e devido a isso, a história oral
recebeu muitas análises negativas durante muito tempo e esteve ligada a grupos
militantes que defendiam essa história “vista de baixo” e outro que via ali uma
fonte potencial, mas que era muito crítico de uma história “espontânea”. Após
certo tempo, na historiografia desenvolve-se o interesse de utilizar a
oralidade como fonte e, partindo disso, a mesma começa a ganhar certo espaço. Isso
é decorrente de um crescente número de eventos e de interesse dos historiadores.
No entanto, é justamente com a memória que a
história oral se aproxima da história geral. Isso se concretiza devido alguns
acontecimentos no mundo como a bomba atômica no Japão, a descolonização e
guerra na Argélia, entre outros eventos. Desta forma, a história oral foi
fincando terreno na historiografia. O curioso é que os desafios ainda existem,
mas em meio a tudo isso, a história servindo-se da memória e da oralidade pode
trazer bons frutos para a historiografia. Para Prins:
A força da história oral é
a força de qualquer história metodologicamente competente. Vem da extensão e da
inteligência com que muitos tipos de fonte são aproveitados para operar em
harmonia. (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011, p.196).
4
Muitos historiadores preferem utilizar o termo ‘fonte oral’,
considerando ‘história oral’ um termo ambíguo, pois considerar somente o relato
como a história no sentido de produção historiográfica seria tirar toda a
teoria crítica que a história desenvolveu ao longo do último século, em usos e
abusos da história oral 2006, Joutard 2006. p. 56-67.