segunda-feira, 20 de maio de 2019

Contribuições da história oral




Voltando-se para a história oral, veremos que existe ainda uma desconfiança acerca desse campo e também representa uma forma relativamente nova enquanto método e que, naturalmente, sofre bastante críticas. Inicialmente, é preciso entender do que se trata, primeiro que deve haver uma distinção de tradição oral e fonte oral: a primeira se configura como testemunho oral transmitido verbalmente de uma geração para outra ou mais; já a fonte oral, é a reminiscência pessoal, sendo essa a que traz experiencias de vida do informante e não passa de geração em geração (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011).
Logo, a fonte oral está ligada com a memória coletiva e, simultaneamente, com a memória individual, mas diferente da tradição oral no próprio sentido da palavra, não está ligado à uma prática cultural onde o indivíduo compartilha suas memórias. É então nesse cenário onde se enquadra o oficio do historiador, que passa a explorar essas memórias para uso historiográfico, e sendo essa reminiscência pessoal, caberá o tipo de oralidade que será trabalhado aqui a partir da abordagem metodológica da história oral.
Trazendo para uma definição simples da história oral4, Joutard afirma se tratar de um método de pesquisa baseado no registro de depoimentos orais concedidos em entrevistas (JOUTARD apud PIERRE WALLOT, 2006). E nesse sentido, é importante explicitar que a história oral por muito tempo sofreu forte resistência no meio acadêmico, por isso, muitas produções foram feitas inclusive por pessoas que não estavam envolvidas com os métodos históricos como jornalistas, por exemplo. Somente no fim do século XX, ela começa a adentrar no espaço acadêmico da História, e se fazer presente nas discussões. Essa característica diz respeito as primeiras gerações de historiadores orais, Jourtard:
De fato, essa nova geração desenvolveu uma nova concepção muito mais ambiciosa: não mais se trata apenas de uma simples fonte complementar do material escrito, e sim “de uma outra história”, afim da antropologia, que dá voz aos “povos sem história”, iletrados, que valoriza os vencidos, os marginais e as minorias, operários, negros, mulheres. Essa história se pretende militante e se acha a margem do mundo universitário (ou é por esse rejeitada) (JOUTARD apud PIERRE WALLOT, 2006, p. 45).

Com isso, e devido a isso, a história oral recebeu muitas análises negativas durante muito tempo e esteve ligada a grupos militantes que defendiam essa história “vista de baixo” e outro que via ali uma fonte potencial, mas que era muito crítico de uma história “espontânea”. Após certo tempo, na historiografia desenvolve-se o interesse de utilizar a oralidade como fonte e, partindo disso, a mesma começa a ganhar certo espaço. Isso é decorrente de um crescente número de eventos e de interesse dos historiadores.
No entanto, é justamente com a memória que a história oral se aproxima da história geral. Isso se concretiza devido alguns acontecimentos no mundo como a bomba atômica no Japão, a descolonização e guerra na Argélia, entre outros eventos. Desta forma, a história oral foi fincando terreno na historiografia. O curioso é que os desafios ainda existem, mas em meio a tudo isso, a história servindo-se da memória e da oralidade pode trazer bons frutos para a historiografia. Para Prins:
A força da história oral é a força de qualquer história metodologicamente competente. Vem da extensão e da inteligência com que muitos tipos de fonte são aproveitados para operar em harmonia. (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011, p.196).

Então, é demonstrado aqui que mesmo com esses desafios enfrentados pela história oral, faz parte de seu desenvolvimento, assim como ocorreu (e ocorre) com a fonte escrita. Reforçamos aqui que é preciso que a oralidade seja encarada como fonte e possa ser problematizada, assim como a fonte escrita também é. Pois, ainda segundo Prins: “Uma visão muito confiável de fontes escritas sem suporte, combinada com demasiado respeito para com os historiadores, pode ser uma combinação igualmente enganadora” (GWYN PRINS apud VAN VANSINA, 2011, p. 188).


4  Muitos historiadores preferem utilizar o termo ‘fonte oral’, considerando ‘história oral’ um termo ambíguo, pois considerar somente o relato como a história no sentido de produção historiográfica seria tirar toda a teoria crítica que a história desenvolveu ao longo do último século, em usos e abusos da história oral 2006, Joutard 2006. p. 56-67. 

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