quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A história dialogando com a memória



Sabendo que a partir dos vestígios do passado que se pode desenvolver a pesquisa histórica, cabe destacar a memória[1] como um compartilhamento de lembranças e discursos acerca do passado. Segundo Le Goff, a memória se comporta como um olhar para o passado ancorado nos interesses e visões de mundo do presente, sem muito senso crítico e sem método, sendo então um tipo de fonte ao qual se dispõe para uso da história, mas não a história em si. (LE GOFF, 2012).
Ainda sobre a memória, Halbwachs (2006) diz que são construções socialmente coletivas, pois determinam o que é memorável e os lugares onde esta será preservada. Portanto, novamente vemos que a memória está ligada aos grupos sociais à medida que é compartilhada coletivamente, não somente com o armazenamento de informações do indivíduo em sua particularidade. Todavia, a socialização da mesma, ao qual recebeu o nome de memória coletiva, só é possível se houver compatibilidade indenitária entre a memória socializada e os indivíduos com suas próprias memórias individuais, como é destacado a seguir:
Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser constituída sobre uma base comum. (HALBWACHS, 2006, p. 39) 

Sendo assim, a memória coletiva é fundamentalmente dependente do indivíduo, ou seja, da reminiscência individual, para que então, a partir disso, se possa formar identidade com outros indivíduos. Logo, esses dois tipos (individual/coletiva), mantém uma interdependência a medida que as lembranças de uma pessoa entram em contato com as de grupos, coexistindo ao longo da vida dos sujeitos.
A questão da memória é muito importante, pois é necessário que haja uma clareza quanto a sua distinção com a história, enquanto ramo do saber. Quando nos referimos a semelhante questão, vemos, novamente em Le Goff (2012) que a memória tem um elemento afetivo muito forte e normalmente atende a demandas do presente: já a história seria uma reconstrução do passado que deve ser feita de forma crítica e com o respaldo teórico e metodológico, sujeita ainda às análises de outros acadêmicos da área. Portanto, a memória vista aqui é tida como elemento auxiliar para produção historiográfica.
Já para Pierre Nora (1993) existe apenas os chamados locais de memória; e não mais os meios desta, pois, o autor acredita que não existe mais, tendo sido esfacelada pela mundialização e pela colonização, resultando no contato entre as diversas culturas e/ou nacionalidades. Nessas circunstancias, segundo Nora, existem somente lugares de memória - partindo do princípio que nos transportando para dentro da história, e, não mais da memória (NORA, 1993). Nesse trecho, vemos o contraponto muito evidente do pensamento de Nora (1993, p. 09) em relação ao que ele formula sobre a distinção entre história e memória:
Memória e história: longe de serem sinônimos, tomamos consciência que tudo opõe uma à outra. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado. (Nora, 1993, p. 39)

Fica notório a defesa do autor para com a memória, que é colocada como uma forma de originalidade, enquanto a história é algo sintético e que, portanto, faz perder a “magia” desta. Por seu lado, Le Goff diz que existe duas histórias: a da memória e a dos historiadores, tendo a segunda a missão de “esclarecer a primeira, e ajudá-la a retificar seus erros” (LE GOFF, 2012, p. 31). Mas, em seguida, surge a dúvida se a história também não cometeria erros e Le Goff defende que desde que existe a história enquanto narrativa e/ou ciência, a mesma esteve (e está) exposta a críticas sucessivas de outros historiadores.
Nesse sentido, a memória não teria como, sozinha, suprir o desejo de entendimento do passado, pois diferente da forma popular que esta tem, a história requer preparo e pesquisa. Pois, pela natureza da memória de estar no campo da seletividade narrativa e desordenada, a história tem o papel da busca constante da cientificidade, onde tenta organizar e analisar, para posteriormente, apresentar seus resultados e servir como material de análise para outros historiadores.
Então, dentro da História, a memória é um tipo de vestígio e não pode ser encarada como um discurso histórico, que segundo Marc Bloch (2006) as ações humanas são vestígios e o historiador não se limitará a papéis. Então, já trazemos aqui a memória como ela é mais associada na atualidade; como uma fonte histórica, como um vestígio. E, sobre a objetividade, no que diz respeito ao trabalho historiográfico, Le Goff afirma que:
A objetividade histórica, objetivo ambicioso, constrói-se pouco a pouco através de revisões incessantes do trabalho histórico, laboriosas verificações sucessivas e acumulação de verdades parciais. (LE GOFF, 2012, p. 34). 

Sendo a história uma busca por esclarecimentos e trabalho que requer métodos, é crucial que se faça, nessa busca, indagações e formulações que gerem debates, e que seja como a própria história é, algo cronologicamente constante.
É importante ressaltar também, que a própria memória tem ligação com o poder, não à toa que histórias de sociedades morrem junto a suas aristocracias Le Goff (2012). Ou seja, além da posse do poder administrativo, quem fica à frente do poder executivo municipal, carrega toda uma carga de memória que será, como vimos antes, o norte da narrativa do passado local, portanto é importante para uma pesquisa, entender que existe um lugar de memória na localidade que está ligada ao poder. Em um trecho interessante de Le Goff (2012) que é a seguinte: Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos Homens. [...] a função da História não é glorificar o passado, ela serve para analisar e entender.
Dessa forma, a História enquanto disciplina de estudo, tem de buscar essa análise e não simplesmente levar toda aquela carga local como algo que está acabado, mas pelo contrário, está em (re)construção.



[1]Segundo Le Goff (2012) a memória coletiva, (pois, é essa a qual interessa-nos delimitar)

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