Sabendo que a partir dos
vestígios do passado que se pode desenvolver a pesquisa histórica, cabe
destacar a memória[1]
como um compartilhamento de lembranças e discursos acerca do passado. Segundo Le Goff, a memória se comporta
como um olhar para o passado ancorado nos interesses e visões de mundo
do presente, sem muito senso crítico e sem método, sendo então um tipo de fonte
ao qual se dispõe para uso da história, mas não a história em si. (LE GOFF,
2012).
Ainda
sobre a memória, Halbwachs (2006) diz que são construções socialmente coletivas, pois
determinam o que é memorável e os lugares onde esta será preservada. Portanto,
novamente vemos que a memória está ligada aos grupos sociais à medida que é compartilhada coletivamente,
não somente com o armazenamento de informações do indivíduo em sua
particularidade. Todavia, a socialização da mesma, ao qual recebeu o nome de memória
coletiva, só é possível se houver compatibilidade
indenitária entre a memória socializada e os indivíduos com suas
próprias memórias individuais, como é destacado a seguir:
Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta
que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha
deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de
contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a
ser constituída sobre uma base comum. (HALBWACHS, 2006, p. 39)
Sendo assim, a memória coletiva é
fundamentalmente dependente do indivíduo, ou seja, da reminiscência individual,
para que então, a partir disso, se possa formar identidade com outros
indivíduos. Logo, esses dois tipos (individual/coletiva), mantém uma interdependência
a medida que as lembranças de uma pessoa entram em contato com as de grupos,
coexistindo ao longo da vida dos sujeitos.
A questão da memória é muito importante, pois
é necessário que haja uma clareza quanto a sua distinção com a história, enquanto
ramo do saber. Quando nos referimos a semelhante questão, vemos, novamente em
Le Goff (2012) que a memória tem um elemento afetivo muito forte e normalmente
atende a demandas do presente: já a história seria uma reconstrução do passado
que deve ser feita de forma crítica e com o respaldo teórico e metodológico,
sujeita ainda às análises de outros acadêmicos da área. Portanto, a memória
vista aqui é tida como elemento auxiliar para produção historiográfica.
Já para Pierre Nora (1993) existe apenas os
chamados locais de memória; e não mais os meios desta, pois, o autor acredita
que não existe mais, tendo sido esfacelada pela mundialização e pela
colonização, resultando no contato entre as diversas culturas e/ou
nacionalidades. Nessas circunstancias, segundo Nora, existem somente lugares de
memória - partindo do princípio que nos transportando para dentro da história, e,
não mais da memória (NORA, 1993). Nesse trecho, vemos o contraponto muito evidente
do pensamento de Nora (1993, p. 09) em relação ao que ele formula sobre a
distinção entre história e memória:
Memória e história: longe de serem sinônimos, tomamos consciência que
tudo opõe uma à outra. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e,
nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta a dialética da lembrança
e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a
todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas
revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do
que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no
eterno presente; a história, uma representação do passado. (Nora, 1993, p. 39)
Fica notório a defesa do autor para com a memória,
que é colocada como uma forma de originalidade, enquanto a história é algo
sintético e que, portanto, faz perder a “magia” desta. Por seu lado, Le Goff
diz que existe duas histórias: a da memória e a dos historiadores, tendo a
segunda a missão de “esclarecer a primeira, e ajudá-la a retificar seus erros”
(LE GOFF, 2012, p. 31). Mas, em seguida, surge a dúvida se a história também
não cometeria erros e Le Goff defende que desde que existe a história enquanto
narrativa e/ou ciência, a mesma esteve (e está) exposta a críticas sucessivas
de outros historiadores.
Nesse sentido, a memória não teria como,
sozinha, suprir o desejo de entendimento do passado, pois diferente da forma
popular que esta tem, a história requer preparo e pesquisa. Pois, pela natureza
da memória de estar no campo da seletividade narrativa e desordenada, a
história tem o papel da busca constante da cientificidade, onde tenta organizar
e analisar, para posteriormente, apresentar seus resultados e servir como
material de análise para outros historiadores.
Então, dentro da História, a memória é um
tipo de vestígio e não pode ser encarada como um discurso histórico, que
segundo Marc Bloch (2006) as ações humanas são vestígios e o historiador não se
limitará a papéis. Então, já trazemos aqui a memória como ela é mais associada
na atualidade; como uma fonte histórica, como um vestígio. E, sobre a
objetividade, no que diz respeito ao trabalho historiográfico, Le Goff afirma
que:
A objetividade histórica, objetivo ambicioso, constrói-se pouco a pouco
através de revisões incessantes do trabalho histórico, laboriosas verificações
sucessivas e acumulação de verdades parciais. (LE GOFF, 2012, p. 34).
Sendo a história uma busca por
esclarecimentos e trabalho que requer métodos, é crucial que se faça, nessa
busca, indagações e formulações que gerem debates, e que seja como a própria
história é, algo cronologicamente constante.
É
importante ressaltar também, que a própria memória tem ligação com o poder, não
à toa que histórias de sociedades morrem junto a suas aristocracias Le Goff
(2012). Ou seja, além da posse do poder administrativo, quem fica à frente do
poder executivo municipal, carrega toda uma carga de memória que será, como
vimos antes, o norte da narrativa do passado local, portanto é importante para
uma pesquisa, entender que existe um lugar de memória na localidade que está
ligada ao poder. Em um trecho interessante de Le Goff (2012) que é a seguinte:
Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não
para a servidão dos Homens. [...] a função da História não é glorificar o
passado, ela serve para analisar e entender.
Dessa
forma, a História enquanto disciplina de estudo, tem de buscar essa análise e
não simplesmente levar toda aquela carga local como algo que está acabado, mas
pelo contrário, está em (re)construção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário