segunda-feira, 30 de julho de 2018

A questão da terra no Nordeste




             Esse recorte ao qual será resenhado é do livro de Manuel Correia de Andrade que foi um escritor, geógrafo e historiador pernambucano nascido na zona da mata norte, formou-se em direito, geografia e história, lecionou durante muito tempo de sua vida até se aposentar, mas sem deixar o meio acadêmico onde ainda participou como coordenador em universidades e fazendo pesquisas. Publicou diversos livros além do qual iremos falar tais como; A pecuária no agreste pernambucano 1961, Nordeste, espaço e tempo 1970Os trinta anos do Brasil 1976 entre outros. Ele faleceu no ano de 2007 deixando um vasto conteúdo sobre história e geografia voltados em sua maioria das vezes ao Nordeste. 
             O texto é dividido em um tema principal e alguns subtemas relacionados, isso acontece em todos os três capítulos e logo de início será falado da questão do agreste nordestino e como se deu o desenrolar histórico e político dessa região sempre na perspectiva geográfica também, pois é dessa forma que o autor procede sua narrativa dos acontecimentos. 
             Quando se trata da questão de propriedade e policultura e da mão de obra nessa região o autor já nos remete as questões econômicas da época como por exemplo a produção de cana de açúcar na região litorânea que faz com que exista uma demanda de animais de carga para transportar tais produtos para as fabricas e para os portos onde seriam enviados aos seus destinos e para isso acontecer é que entra o fator da região do agreste com sua pecuária que abastece as demandas do litoral, assim como veremos adiante com a região sertaneja o agreste será local de fazendas de criação de animais e terá seu povoamento muito tardio devido justamente a economia está sendo voltada somente a parte litorânea. 
              O texto mostra também uma relação da invasão holandesa com a mudança na região agreste, pois muitos fazendeiros migraram para as regiões do sertão por conta da mudança de poder na província de Pernambuco e fez com que houvesse mudanças em relação a interesses. Outro fator que influenciou a região foi o quilombo dos palmares que tinham uma grande influência na região entre Alagoas e Pernambuco sendo que essa primeira pertencia a segunda e só se desvinculou após a expulsão dos holandeses como punição, e essa influência acabou quando o quilombo foi dizimado e logo após isso ocorrer surgiu nessa área diversas sesmarias que inclusive são existentes até os dias atuais na região de Palmares. 
              Uma coisa curiosa e que chamou atenção foi a explicação sobre os vaqueiros que no agreste assim como no sertão eram responsáveis por cuidar dos animais seja como pastoris como também como ferradores dos animais, pois como não havia cercamentos os animais poderiam ser confundidos com os de uma fazenda vizinha então eram marcados com ferro quente contendo as digitais dos seus donos ou sendo cortados partes das orelhas cada um de uma forma diferente para não se confundirem.  
              Os vaqueiros também se reuniam para justamente fazer o que chamavam de apartação e essas viravam uma verdadeira festa reunindo vaqueiros de várias fazendas da região e em algumas ocasiões existia aquele animal ao qual se perdia na mata e era oferecido um prêmio a quem o resgatasse ou até mesmo o animal que fosse capturado ficava com o capturador e isso gerava uma grande busca competitiva entre os vaqueiros sendo salientado pelo autor que talvez isso tenha gerado o que chamamos hoje de vaquejada em toda a região nordeste do nosso país.   
             Em seguida temos o capitulo cinco chamado de; O latifúndio, a divisão da propriedade e as relações de trabalho no sertão e no litoral setentrional. Portanto o autor vai iniciar esse tema relatando a questão do assentamento em si de habitantes para a área do sertão nordestino em períodos coloniais e como isso se deu, em primeiro lugar é abordado a maciça disputa por parte dos senhores coloniais para dividir as terras pelo sistema de sesmarias em que era concedido a pessoas da alta realeza de Portugal as terras com a única justificativa de esses serem aptos a obterem as terras. 
             E esses grandes latifundiários encontrarão problemas com os nativos, pois esses vão resistir até onde puderem para se manterem nas terras onde na verdade eles também eram imigrantes por conta da expulsão dos mesmos das regiões litorâneas, porem os latifúndios se firmam no sertão e iniciam ali um sistema que até o autor chama a atenção que é o fato de esse sistema de produção e meio de vida existe em comparativo no texto com o século XX na mesma região claro tirando a parte do trabalho escravo, ou seja o estabelecimento de um grande grupo latifundiário que detém o poder sobre as terras ainda é uma realidade no Brasil contemporâneo. 
              No decorrer do texto vai sendo explanado também, até com uma minuciosidade   nos detalhes, a questão do cotidiano da época na região dos sertões nordestinos onde existia os chamados sítios onde moravam o senhor que era dono das terras e aqueles chamados vaqueiros que trabalhavam para os anteriores e moravam em uma pequena parcela dessas terras onde se estabeleciam com suas famílias, mas a função desses vaqueiros era orientar o gado em meio a caatinga, pois a conclusão do autor é de que inicialmente o único meio econômico do sertão era a pecuária, onde somava a produção de queijo e de carne para ser transportada para a região litorânea trabalho feito também pelos vaqueiros. 
               Quando se trata de agricultura na região sertaneja e de caatinga não há tanto o que se falar, pois devido a distância do litoral ficava difícil transportar produtos para plantio e também da questão da região que não era favorável para lavouras fazendo com que aquelas áreas fossem destinadas inicialmente para criação de animais, porem existia ainda assim o que podemos chamar de pequenas “ilhas” de plantação em áreas sertanejas chamadas de oásis, contanto era por parte dos próprios vaqueiros em pequenas proporções, onde plantavam milho, mandioca, feijão, algodão entres outros.           
                E por fim o texto trata da questão da região mais a noroeste e sobre a relação do Maranhão com os franceses que ali habitaram durante um certo tempo e que influenciaram muito aquela região, mas por fim foram expulsos pelos portugueses que mesmo com as invasões tanto holandesa como francesa sempre conseguiram se restabelecer como soberanos tanto no Nordeste como em todo o que viria a ser o Brasil. 
                O texto realmente nos faz perceber todas as contradições e transformações que existiram na região Nordeste do Brasil e como se deu sua forma atual, pois muito do que vemos no texto está diretamente ligado ao que entendemos como Nordeste hoje, portanto é um texto essencial a quem quer conhecer de fato a questão da terra e da vida nessa região e não só isso é entender as sub-regiões como sertão e agreste dentro de um contexto macro que abarca toda um sistema existente no Brasil setentrional e para entende-lo é preciso a leitura desse texto.  


ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra e o Homem no Nordeste. 1º Ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1963. P. 151-235. 

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